
Sinto falta daquela pitada... daquele gosto intenso e indiscreto...
Sinto falta de um pó de malagueta nestes desenhares de sonhos =)
Sinto falta daquele abraço... cá te espero

As teclas da máquina de escrever eram combinadas impulsivamente enquanto a melodia do piano soava na sala ao lado. A vontade de gravar nas folhas brancas as memorias dos últimos tempos era arrebatadora… as folhas marcadas eram jogadas para trás para outras novas serem confidentes… Escrevia sobre quatro meses…quatro meses densos [tão densos]. Algumas lágrimas escorriam quando recordava que fora obrigada a acordar de um sonho que vivera… que ao acordar deparara-se com um vazio imenso… que perdera num sopro alguns que amava e que sempre a acompanharam… Mas não declamava com a velha máquina a tristeza que sentia mas sim como tentou viver intensamente os entretantos… como quis “enganar o desencanto”.
Sim… porque a felicidade está nestes mesmos entretantos, a felicidade está em poder escrever em folhas brancas sonhos passados e futuros, está em poder ouvir o piano da sala ao lado, de poder homenagear quem nos deixou, de poder partilhar sentimentos, de poder rir, criar laços, reescrever histórias antigas, de provocar gargalhadas, de receber beijos e abraços, de comer morangos, de fazer e desfazer malas, delinear viagens, partilhar melodias…
[quatro meses pesados…tão pesados, que ela sobrevoou sem nunca ter tocado com os pés no chão]




[De manhãzinha… a luz reflecte no soalho amarelo, o dia diz-me calmamente:
“já te esperava”…]
Descalça vou à cozinha inundada desta luz límpida que adoro… vou cambaleando de sono e a pisar as compridas calças do pijama [tenho mesmo de lhes fazer a bainha]
Meio implicante porque o leite não está fresco o suficiente para os cereais e mais ainda porque em pouco tempo vou para a faculdade… encosto-me à janela por entre os bambus dos estores a olhar para o “fora” trincando cereais secos.
Lá está o gato da vizinha, dorme agora, depois de perturbar a urbanização durante a noite.
Na outra varanda estão estendidas os mil pares de meias pretas do homem da casa… e só depois vem a minha varanda preferida, a do bonsai. Protegido pela sombra de uma prancha de surf, todas as manhãs é simpaticamente regado pelo vizinho surfista.
Ponho Jack Johnson a tocar e relembro o meu Verão e o meu mar. [Espreguiço-me com um sorriso gigante de quem sabe que falta pouco]
Acho que vou para a faculdade mais tarde... espero apenas que o leite fique fresco.
[tempo suficiente para o surfista acabar de cortar os ramos do bonsai ]

ha em mim um fascínio nesse fruto que vai além do seu sabor...
seduz-me o seu vermelho-intenso, agrada-me a sua simplicidade. . .
romantizo a tola ideia de virem (quase) sempre de mãos dadas, aos pares, sussurando beijos rubros...
trinquemos cerejas sob essas tardes de sol, entre gargalhadas e amigos... e mais nada será preciso!

e ainda que nao esteja...
é no breve instante que as contemplo que ganho força,
esqueço o cansaço
e mergulho de novo na balbúrdia que me oferece o estirador...
img. pepper








"... dos gardenias para ti
Con ellas quiero decir..................................."