Friday, September 28, 2007

Prosa Surreal



img. Nonoray
[momento de um ano e meio atrás]
Angry M.: Parcos os sons que pairam á nossa volta, como se estivéssemos sós no meio do mundo. A tua pele reflecte a pálida luz de primavera com que o sol nos cobre. Algumas janelas ofuscam de quando em vez os nossos olhos, fazendo sobressair a cor amêndoa dos teus. Neles reflectidos, o burburinho que não ouvimos, os movimentos que não sentimos, a cor dos meus olhos, que mal vejo, por achar que pura e simplesmente não estou ali. Falas-me de poesia, acho, não consigo perceber as tuas palavras, pois, apenas me soam murmúrios, apenas vejo teus lábios mexer, estou demasiado perdido no calor do teu respirar, no esvoaçar solto e indelével dos teus cabelos.

Cinnamon: Chamo-te á realidade ao misturar o doce no café... Não queria que os teus olhos se perdessem em pormenores. A poesia que cantava era a minha energia momentânea. Queria passar-te quem era... Entre melodia de chávenas e rio.
Angry M.: Vejo agora em teu redor. O achincalhar da colher, tocando mesmo que ao de leve na chávena, solto um baque cerâmico, um despertar forçado que nos chama para a realidade. Paira agora um aroma de café e natas, chocolate e canela.
Cinnamon: Impaciente moves-te na cadeira... incomodo-te por me distrair com as minhas palavras. Perco-me no raciocino com a pinga de ardor quente de café na mão.
Angry M.: Em teu redor, reparo no movimento. Aos poucos desperto. Estendo-te um pano, para limpares a lágrima de café. Sinto agora o perfume, o perfume de café que deixas no meu lenço, aquele que tinha escondido entre bolsos nos meus jeans.
Cinnamon: O lenço.... Prova da tua mortalidade. Observo o movimento banal de mo entregares... respiro fundo enquanto limpo a gota de café, seguindo um soluço mudo de quem quer limpar a alma...entrego-te o lenço com a tristeza de quem esperava o momento... absorvo a luz, não queria os teus traços definidos na minha memória... Perguntava-me: porque não me beijaste a mão? Sabes que não ponho açúcar no café… este estava adocicado propositadamente para os teus lábios.
Angry M.:Senti uma desilusão no ar. Senti que mais uma vez os meus reflexos práticos estagnaram os poucos avanços que me foram permitidos. "Tonto" pensei, "porque te sentes assim? pareces um adolescente". Nunca o deixamos de o ser... Nunca quando alguém de quem gostamos está á nossa frente. Ficamos sem jeito... hilariante, quase. Quase hilariante a forma como nos esquecemos que somos adultos.
- Estás bem? - pergunto, ainda sentindo um nervoso na voz.
Cinnamon: Queria chamar-te de tolo... Imaturo... Perguntas-me com a tua voz irresistivel de miúdo se estou bem. Como poderia explicar-te os mil desfechos que sonhava para a nossa tarde na esplanada? E como eles se desfizeram com o teu gesto. Levanto-me a olhar para o teu colarinho e digo:

- Amanhã... Amanha voltaremos a beber café.
Parti esperançosa que amanhã me beijasses a gota adocicada.


[povilhado com pozinhos de Angry Monkey :)]

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